IBGIA - Instituto Brasileiro de Governança em Inteligência Artificial
PB-2026-013

IA no Agronegócio Brasileiro: Oportunidades, Riscos Regulatórios e Governança

André Nakamura, Thiago AlmeidaMarço 2026IBGIA Working Paper Series

IA no Agronegócio Brasileiro: Oportunidades, Riscos Regulatórios e Governança

Autores: André Nakamura, Thiago Almeida Série: IBGIA Policy Brief Series Número: PB-2026-013 Data: Abril 2026


Sumário Executivo

O agronegócio responde por 25% do PIB brasileiro e está passando pela mais profunda transformação tecnológica da sua história: drones autônomos, IA de precisão, sistemas preditivos de pragas e câmeras de visão computacional estão sendo adotados em escala por produtores de todos os portes. Ao mesmo tempo, o arcabouço regulatório brasileiro ignora quase completamente essa transformação.

Este policy brief mapeia os principais usos de IA no agronegócio brasileiro, identifica os riscos regulatórios e propõe um framework de governança específico para o setor — considerando suas características únicas: escala, informalidade, dependência de commodities, exposição ambiental e impacto em comunidades rurais.

Recomendações-chave:

  1. Incluir "sistemas de IA para gestão de lavoura em larga escala" como categoria de alto risco no PL 2338/2023
  2. Criar um Protocolo de Auditoria de IA Agronômica (PAIA) junto ao MAPA
  3. Regulamentar o uso de dados geoespaciais e de produção por plataformas de AgTech
  4. Estabelecer salvaguardas para agricultores familiares prejudicados por decisões algorítmicas

1. IA no Agronegócio: Estado da Arte no Brasil

1.1 Escala de Adoção

O Brasil é o segundo maior exportador agrícola do mundo e opera em uma escala que favorece a automação. A adoção de IA no setor cresceu 340% entre 2020 e 2025 (EMBRAPA/FGV):

Grandes produtores (> 1.000 ha):

  • 78% já utilizam alguma forma de IA em monitoramento de lavouras
  • 61% usam sistemas de decisão algorítmica para aplicação de defensivos
  • 45% têm plataformas de gestão com analytics preditivo
  • 23% testam colheita autônoma (principalmente soja e cana)

Médios produtores (100-1.000 ha):

  • 34% usam drones com visão computacional para monitoramento
  • 28% adotaram plataformas SaaS de gestão com IA (John Deere Operations Center, Trimble Ag)
  • 15% recebem recomendações algorítmicas de crédito agrícola

Pequenos produtores e agricultura familiar:

  • 8% tiveram contato com alguma ferramenta de IA agrícola
  • Acesso mediado principalmente por cooperativas e assistência técnica (ATER)
  • Alto risco de exclusão digital do ecossistema AgTech

1.2 Principais Aplicações

Monitoramento e diagnóstico:

  • Visão computacional para identificação de pragas, doenças e deficiências nutricionais (ex: Traive, Corteva)
  • Sensores IoT + ML para monitoramento de solo em tempo real
  • Drones autônomos com câmeras multiespectrais para mapeamento de lavouras

Previsão e planejamento:

  • Modelos preditivos de clima e impacto em produtividade (ex: The Climate Corporation, adquirida pela Bayer)
  • Previsão de preços de commodities com NLP em relatórios e dados de mercado
  • Sistemas de sugestão de janela de plantio e colheita

Rastreabilidade e certificação:

  • Blockchain + IA para rastreabilidade de soja não-desmatamento (exigência UE)
  • Sistemas de certificação ESG baseados em sensoriamento remoto automatizado
  • Plataformas de registro de uso de agroquímicos com análise de conformidade

Crédito e seguros:

  • Scoring de crédito rural baseado em histórico produtivo + dados de satélite
  • Ajuste automatizado de sinistros por seguro rural com imagens de drones
  • Plataformas de crédito AgTech (ex: Traive Finance) usando ML para análise de risco

2. Riscos Regulatórios Específicos do Setor

2.1 Decisões Algorítmicas de Alto Impacto Sem Supervisão

O risco mais imediato é a proliferação de sistemas de IA que tomam — ou fortemente influenciam — decisões com alto impacto sobre produtores, trabalhadores rurais e meio ambiente, sem qualquer obrigação de transparência ou revisão humana:

Crédito rural algorítmico:

  • Plataformas de AgTech negam crédito com base em modelos de ML não auditados
  • Agricultores familiares sem histórico digital são sistematicamente desfavorecidos
  • Não há direito a explicação previsto nas condições gerais das plataformas
  • Caso documentado IBGIA (2025): cooperativa no Mato Grosso teve 40% das solicitações de custeio negadas por sistema algorítmico sem justificativa compreensível

Seguros rurais:

  • Ajuste de sinistros por drones e IA pode subestimar danos reais
  • Algoritmos treinados em regiões de alta tecnologia têm performance inferior em regiões com baixo histórico de dados
  • Sem canal de contestação efetivo: agricultores não têm acesso ao modelo que calculou seu sinistro

Certificação de sustentabilidade:

  • Sistemas de rastreabilidade baseados em satélite classificam como "desmatamento" áreas de pousio ou uso tradicional legítimo
  • Erros de classificação têm consequências graves: perda de certificação, cancelamento de contratos de exportação
  • Caso documentado: produtor no Pará perdeu contrato com frigorífico exportador por falso positivo em sistema de monitoramento automatizado

2.2 Concentração de Dados e Poder de Mercado

O ecossistema AgTech é dominado por poucos atores globais (John Deere, Bayer/Monsanto, Syngenta, BASF) e nacionais (Solinftec, Aegro, Cromai) que acumulam dados de produção em escala sem contrapartidas regulatórias claras:

Asymmetria de informação:

  • Produtores fornecem dados de produção, solo, clima e práticas agronômicas às plataformas
  • As plataformas usam dados agregados para treinar modelos que vendem de volta como serviços
  • Cláusulas contratuais geralmente transferem propriedade dos dados para a plataforma

Risco de uso anti-competitivo:

  • Dados de produção de cooperativas repassados para seguradoras concorrentes
  • Previsão de produção de commodities por atores globais com vantagem informacional sobre produtores brasileiros
  • Risco de insider trading em mercados futuros baseado em dados de satélite proprietários

Soberania de dados agrícolas:

  • Dados geoespaciais de propriedades rurais brasileiras armazenados em servidores estrangeiros sem proteção equivalente à LGPD
  • Potencial de uso por serviços de inteligência estrangeiros para mapeamento do agronegócio brasileiro

2.3 Impacto em Trabalhadores Rurais

A automação acelerada no agronegócio coloca uma questão de governança que o PL 2338 ignora completamente:

Colheita mecanizada e autônoma:

  • Cada colheitadeira autônoma de cana substitui 80-100 trabalhadores manuais por temporada
  • Estimativa FGV: 1,8 milhão de postos de trabalho rural em risco de automação até 2030
  • Concentração no Nordeste (cana) e Centro-Oeste (soja, milho)

Monitoramento e controle de trabalhadores:

  • Sistemas de rastreamento GPS de tratores e colheitadeiras criam registros de produtividade individual
  • IA de análise de comportamento sendo testada em câmeras de cabines
  • Risco de demissões algorítmicas baseadas em métricas de desempenho sem supervisão humana

2.4 Impacto Ambiental e em Comunidades Tradicionais

Sistemas de pulverização por drones:

  • Sem regulação clara do MAPA/ANVISA sobre deriva de agrotóxicos em áreas com drone autônomo
  • Casos de contaminação de comunidades quilombolas por erro em algoritmo de voo
  • Ausência de consulta prévia (Convenção 169 OIT) para implantação de sistemas em áreas próximas a territórios tradicionais

Classificação automática de uso do solo:

  • Sistemas de IA treinados com definições rígidas de "uso produtivo" classificam práticas indígenas e quilombolas como "improdutivas"
  • Potencial uso dessas classificações em litígios de usucapião e demarcação

3. Lacunas no Marco Regulatório Atual

3.1 PL 2338/2023

O texto aprovado pelo Senado em novembro de 2024 apresenta as seguintes lacunas para o agronegócio:

| Aspecto | Situação no PL 2338 | Lacuna | |---|---|---| | Crédito rural algorítmico | Prevê direito de contestação para crédito bancário | Não alcança plataformas AgTech não reguladas pelo BACEN | | Dados de produção agrícola | LGPD aplica-se a dados pessoais | Dados de produção (solo, lavoura) não são pessoais — sem proteção | | Certificação ESG automatizada | Sem menção | Ausente | | Trabalhadores rurais monitorados | Proteção genérica | Sem especificidade para relação rural temporária | | Comunidades tradicionais | Grupos vulneráveis mencionados genericamente | Sem consulta prévia exigida |

3.2 LGPD

A LGPD protege dados pessoais, mas dados de produção agrícola — mesmo quando vinculados a uma propriedade — frequentemente escapam da sua proteção. Uma CPF Produtor Rural pode ter seus dados de produtividade, localização de propriedade e práticas agronômicas coletados e compartilhados sem que a LGPD se aplique integralmente.

3.3 Regulação MAPA

O Ministério da Agricultura não possui framework regulatório específico para IA. As normativas vigentes cobrem certificação de produtos, defensivos e sementes, mas não sistemas de decisão algorítmica em gestão de lavouras ou crédito rural.


4. Framework de Governança para IA Agronômica

4.1 Classificação de Risco

Propomos uma classificação de risco adaptada ao setor:

Alto Risco (obrigações máximas):

  • Sistemas de pontuação de crédito rural que afetam acesso a financiamento
  • Sistemas de ajuste automático de sinistros de seguros rurais
  • Sistemas de certificação ESG/sustentabilidade com impacto em contratos de exportação
  • Sistemas de monitoramento de trabalhadores rurais com efeitos em demissões ou remuneração

Risco Significativo (obrigações intermediárias):

  • Sistemas de recomendação de manejo agronômico adotados em larga escala
  • Plataformas de gestão com analytics preditivo de produtividade
  • Sistemas de rastreabilidade baseados em dados de satélite

Risco Baixo (registro e transparência):

  • Drones de monitoramento com geração de relatórios para decisão humana
  • Ferramentas de diagnóstico de pragas com revisão humana obrigatória
  • Sistemas de sugestão de janela de plantio

4.2 Protocolo de Auditoria de IA Agronômica (PAIA)

Para sistemas de alto risco, propomos um PAIA com os seguintes elementos:

1. Documentação obrigatória:

  • Dados de treinamento (origem, representatividade regional, vieses conhecidos)
  • Métricas de performance por região e tipo de produtor
  • Limitações conhecidas do modelo (ex: menor acurácia para agricultores familiares)

2. Auditoria independente bienal:

  • Realizada por organismo credenciado junto ao MAPA
  • Foco em acurácia, equidade e impacto em grupos vulneráveis
  • Resultado público em portal centralizado

3. Direito de explicação para produtores:

  • Decisões de crédito, seguro e certificação devem ser acompanhadas de explicação inteligível
  • Direito de revisão humana sem custo adicional
  • Prazo máximo de 5 dias úteis para resposta a contestação

4. Canal de denúncia setorial:

  • Ouvidoria especializada junto ao MAPA para reclamações sobre sistemas de IA
  • Integração com ANATEL para falhas de conectividade que prejudiquem acesso a plataformas digitais

4.3 Proteção de Dados Agrícolas (PDA)

Propomos a criação de um regime específico de Proteção de Dados Agrícolas, complementar à LGPD:

Dados protegidos:

  • Coordenadas geoespaciais de propriedades rurais
  • Dados de produção, produtividade e práticas agronômicas
  • Dados de uso de defensivos e fertilizantes
  • Dados biométricos de trabalhadores rurais

Obrigações:

  • Consentimento específico para compartilhamento com terceiros (inclusive subsidiárias da mesma empresa)
  • Direito de portabilidade: produtor pode exportar seus dados em formato aberto
  • Proibição de venda de dados de produção a competidores identificáveis
  • Retenção máxima de 10 anos após encerramento do contrato com plataforma

Soberania:

  • Dados de propriedades rurais maiores que 1.000 ha devem ser armazenados em território nacional
  • Veto a compartilhamento com entidades estrangeiras sem aprovação do MAPA e da ANPD

4.4 Salvaguardas para Agricultura Familiar

Os 3,8 milhões de estabelecimentos de agricultura familiar (IBGE 2017) exigem proteções específicas:

Acesso equitativo:

  • Plataformas de crédito rural que operem com recursos do PRONAF devem demonstrar que seus modelos não discriminam agricultores familiares
  • Requisito de "paridade de acurácia": diferença máxima de 10% entre performance para grandes e pequenos produtores

Assistência técnica digital:

  • ATER pública deve incluir capacitação sobre direitos em relação a sistemas de IA
  • Direito de acesso a versões analógicas de serviços públicos rurais

Consulta prévia para comunidades tradicionais:

  • Implementação de sistemas de monitoramento por drones em áreas contíguas a territórios indígenas e quilombolas exige consulta prévia (Convenção 169 OIT)
  • FUNAI e INCRA devem ser notificados com 90 dias de antecedência

5. Recomendações

Para o Congresso Nacional

  1. Emenda ao PL 2338/2023: incluir crédito rural algorítmico e certificação ESG automatizada como categorias de alto risco
  2. Lei de Proteção de Dados Agrícolas: legislação específica complementar à LGPD para dados de produção e propriedades rurais
  3. CADE: investigação de práticas de coleta e uso de dados por plataformas globais de AgTech

Para o Poder Executivo (MAPA, MAPA/SDA)

  1. Regulamentação do PAIA: portaria ministerial instituindo o Protocolo de Auditoria de IA Agronômica
  2. Programa Nacional de IA Agronômica Responsável: incluir governança de IA como critério de acreditação para plataformas de assistência técnica
  3. Grupo de trabalho interministerial: MAPA + ANPD + CADE + MAPA para regulação de dados e IA no agronegócio

Para o BNDES e Financiadores Públicos

  1. Cláusula ESG-IA: financiamentos a empresas de AgTech condicionados ao cumprimento do PAIA
  2. Linhas especiais para cooperativas: apoiar cooperativas na negociação coletiva de contratos com plataformas digitais
  3. Fundo de Inclusão Digital Rural: conectividade e capacitação como pré-condição para adoção de IA no campo

Para Empresas de AgTech

  1. Transparência proativa: publicar anualmente relatório de desempenho dos modelos por região e tipo de produtor
  2. Cláusulas contratuais justas: remover cláusulas de transferência total de dados sem consentimento e oferecer portabilidade real
  3. Investimento em dados de agricultores familiares: incluir representatividade de pequenos produtores no treinamento de modelos

6. Conclusão

O agronegócio brasileiro está adotando IA em velocidade superior à capacidade regulatória do Estado. O resultado, sem intervenção, será um setor onde as grandes plataformas globais acumulam dados e poder, os produtores — especialmente os menores — ficam cada vez mais dependentes e vulneráveis a decisões algorítmicas opacas, e os trabalhadores rurais e comunidades tradicionais arcam com os custos sem proteção adequada.

A janela para agir é estreita: a consolidação das plataformas de AgTech no Brasil está em curso e, uma vez que os contratos de dados sejam normalizados sem proteções, reverter o processo se torna muito mais difícil. As propostas deste policy brief oferecem um caminho equilibrado: não se trata de frear a inovação no campo, mas de garantir que ela aconteça com transparência, equidade e respeito aos direitos de produtores, trabalhadores e comunidades.


Referências

  • EMBRAPA. Relatório de Adoção de Tecnologias Digitais no Agronegócio 2025. Brasília: EMBRAPA, 2025.
  • IBGE. Censo Agropecuário 2017. Rio de Janeiro: IBGE, 2018.
  • FGV-EESP. AgTech e o Futuro do Trabalho Rural. São Paulo: FGV, 2025.
  • OCDE. Digital Opportunities for Better Agricultural Policies. Paris: OCDE, 2019.
  • MAPA. Estratégia Nacional de Biossegurança e Inovação Agropecuária 2025-2030. Brasília: MAPA, 2025.
  • CADE. Mercado de Plataformas Digitais para o Agronegócio. Brasília: CADE, 2024.
  • IBGIA. Levantamento de Casos de Decisões Algorítmicas no Agronegócio Brasileiro. São Paulo: IBGIA, 2025.
  • FUNAI. Relatório de Impacto de Drones em Territórios Indígenas. Brasília: FUNAI, 2025.

PB-2026-013 | IBGIA Policy Brief Series | Abril 2026 Instituto Brasileiro de Governança em IA — ibgia.org

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